Amor Absoluto - Amor - O Amor

O Amor

 

 

Amor! enlevo d'alma, arroubo, encanto

Desta existência mísera, onde existes? 

Fino sentir ou mágico transporte,

 O quer que seja que nos leva a extremos,

Aos quais não basta a natureza humana;

Simpática atração d'almas sinceras

Que unidas pelo amor, no amor se apuram,

Por quem suspiro, serás nome apenas?

 

A inútil chama ressecou meus lábios,

Mirrou-me o coração da vida em meio,

E à terra fez baixar a mente errada

Que entre nuvens, amor, por ti bradava! 

Não te pude encontrar! — em vão meus anos

No louco intento esperdicei; gelados,

Uns após outros a cair precipites

Na urna do passado os vi; eu triste,

Amor, por ti clamava; — e o meu deserto

Aos meus acentos reboava embalde.

Em vão meu coração por ti se fina,

Em vão minha alma te compreende e busca,

Em vão meus lábios sôfregos cobiçam

Libar a taça que aos mortais ofereces!

Dizem-na funda, inesgotável, meiga;

Enquanto a vejo rasa, amarga e dura!

Dizem-na bálsamo, eu veneno a sorvo:

Prazer, doçura, — eu dor e fel encontro!

 

Dobrei-me às duras leis que me impuseste,

Curvei ao jugo teu meu colo humilde,

Feri-me aos teus ardentes passadores,

Prendi-me aos teus grilhões, rojei por terra...

E o lucro?... foram lágrimas perdidas,

Foi roxa cicatriz qu'inda conservo,

Desbotada a ilusão e a vida exausta!

 

Celeste emanação, gratos eflúvios

Das roseiras do céu; bater macio

Das asas auribrancas d´algum anjo,

Que roça em noite amiga a nossa esfera,

Centelha e luz do sol que nunca morre;

És tudo, e mais qu'isto: — és luz e vida,

Perfume, e vôo d'anjo mal sentido,

Peregrinas essências trescalando!...

Também passas veloz, — breve te apagas,

Como duma ave a sombra fugitiva,

Desgarrada voando à flor de um lago!

 

 

*S. Agostinho*

 

 

 

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